Localizado na Gamboa, na Região Portuária do Rio de Janeiro, o Cemitério dos Pretos Novos preserva vestígios de africanos que morreram após a chegada à Baía de Guanabara ou logo depois do desembarque, antes de serem comercializados pelo sistema escravista.
Redescoberto acidentalmente em 1996, o sítio arqueológico tornou-se uma das evidências materiais mais relevantes para compreender o tratamento desumano dispensado às vítimas do tráfico transatlântico. No mesmo endereço funciona atualmente o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, responsável por ações de preservação, pesquisa e educação patrimonial.
🏛️ A História dos “Pretos Novos” e o Cais do Valongo
A expressão histórica “pretos novos” era utilizada pelo sistema escravista para identificar africanos recém-chegados ao Brasil, sobretudo aqueles que ainda aguardavam venda nos mercados da região portuária. O termo pertence ao vocabulário daquele período e deve ser utilizado atualmente apenas em seu contexto histórico.
Antes da transferência para o Valongo, existia uma área de sepultamentos nas proximidades do Largo de Santa Rita, perto do antigo mercado de africanos escravizados. Durante o governo do vice-rei Marquês do Lavradio, o mercado e o cemitério foram deslocados para uma região então situada fora dos limites mais urbanizados da cidade, no caminho da Gamboa.
O cemitério funcionou no Valongo aproximadamente entre o final da década de 1760 e 1830.
O Cais do Valongo, construído a partir de 1811 para o desembarque de africanos escravizados, integrou esse mesmo sistema portuário. A UNESCO estima que cerca de 900 mil africanos tenham entrado nas Américas por essa área e reconhece o cais como a evidência física mais importante da chegada de africanos escravizados ao continente. O título de Patrimônio Mundial, concedido em 2017, pertence ao Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, e não ao cemitério.
Condições dos sepultamentos
Documentos históricos e pesquisas arqueológicas indicam que os restos mortais eram depositados em um terreno relativamente pequeno, muitas vezes com pouca cobertura de terra. A superposição dos sepultamentos, a dispersão de ossos e os indícios de fragmentação e queima revelam práticas marcadas pela negligência e pela desumanização.
É comum encontrar a estimativa de que 20 mil a 30 mil pessoas tenham sido depositadas no local. Entretanto, esse número não corresponde a um registro completo. Documentos conhecidos registram 6.122 sepultamentos apenas entre 1824 e 1830, enquanto as estimativas mais amplas procuram considerar todo o período de funcionamento e os registros perdidos ou incompletos. Portanto, o total exato permanece desconhecido.
O local é frequentemente descrito por instituições culturais como um dos maiores cemitérios de africanos escravizados das Américas. Ainda assim, a expressão deve ser entendida como uma caracterização baseada em estimativas históricas, e não como uma classificação arqueológica definitiva e universalmente mensurada.
A Descoberta Arqueológica e a Criação do IPN
Depois do encerramento, a expansão urbana cobriu gradualmente o antigo cemitério. Casas foram construídas sobre parte do terreno, e sua localização deixou de ser claramente reconhecida na paisagem da cidade.
Em janeiro de 1996, Merced e Petrúcio Guimarães dos Anjos iniciaram uma reforma em sua residência na Rua Pedro Ernesto. Durante a obra, foram encontrados fragmentos de ossos humanos e materiais arqueológicos. A descoberta foi fortuita: não se tratava de uma escavação previamente organizada por pesquisadores.
Após o achado, começaram os trabalhos de salvamento e análise arqueológica. Pesquisas posteriores buscaram identificar a extensão do terreno, compreender as práticas de sepultamento e estudar como as construções erguidas no século XIX interferiram nas camadas arqueológicas. Novas investigações ocorreram entre 2010 e 2012, durante as obras do VLT em 2014 e em escavações realizadas em camadas mais profundas a partir de 2017.
Os estudos encontraram restos mortais dispersos, evidências de queima e fragmentação, além de objetos e materiais associados à ocupação histórica da região. As análises bioarqueológicas ajudam a investigar idade, condições de saúde, alimentação, esforços físicos e possíveis regiões de origem de parte dos indivíduos.
Em 2017, pesquisadores localizaram um esqueleto relativamente completo de uma jovem africana, ao qual foi atribuído simbolicamente o nome Bakhita. Esse não era seu nome histórico conhecido, e não existem documentos que permitam reconstruir uma biografia individual. O estudo procura compreender, por meio dos vestígios físicos, algumas das condições enfrentadas pela jovem antes de sua morte.
O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos — IPN foi criado em 13 de maio de 2005. A instituição privada e sem fins lucrativos atua na preservação do sítio arqueológico, no desenvolvimento de pesquisas, na educação patrimonial e na valorização da memória africana e afro-brasileira.
Entre as principais atividades estão:
• Preservação arqueológica: manutenção das áreas em que os vestígios permanecem visíveis no próprio terreno;
• Pesquisa: apoio a estudos históricos, arqueológicos e bioantropológicos;
• Educação patrimonial: atendimento a visitantes, estudantes e grupos;
• Ações culturais: exposições, encontros, cursos e atividades voltadas à memória afro-brasileira;
• Circuitos educativos: roteiros orientados por pontos relacionados à herança africana na Região Portuária.
O IPN foi reconhecido pelo Iphan, em 2010, com o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade por suas ações de preservação, pesquisa e divulgação do sítio arqueológico.

🔗 A Conexão com a Pedra do Sal e a Pequena África
O Cemitério dos Pretos Novos e a história da Pedra do Sal fazem parte da paisagem histórica da Pequena África, mas representam dimensões distintas da experiência negra na região portuária.
O cemitério evidencia a morte e o tratamento desumano dispensado aos africanos que não sobreviveram à travessia ou aos primeiros dias após o desembarque, enquanto a Pedra do Sal está relacionada ao trabalho portuário, à religiosidade, à convivência comunitária e às manifestações culturais afro-brasileiras.
O cemitério não ficava na Pedra do Sal: os dois pontos integram um território mais amplo, conectado por trajetórias de violência, resistência, memória e reconstrução comunitária.
📍 Informações Práticas para Visitação
O Museu Memorial funciona no mesmo endereço em que parte dos vestígios foi encontrada. A visita permite conhecer a história do cemitério e observar áreas preservadas do sítio arqueológico.
Endereço: Rua Pedro Ernesto, 32/34, Gamboa, Rio de Janeiro.
VLT: o mapa do VLT Carioca apresenta a parada Santa Rita–Pretos Novos, na Linha 3, como referência ligada ao local. A parada Harmonia, da Linha 1, também é indicada pelo próprio IPN como acesso possível. Verifique a linha e a operação no dia do passeio.

Horários divulgados pelo IPN: de terça a sexta-feira, das 10h às 16h; aos sábados, das 10h às 13h.
Ingressos: o IPN divulga entrada gratuita às terças-feiras para público em geral. De quarta-feira a sábado, o valor informado é de R$ 20 para a entrada inteira e R$ 10 para a meia-entrada. Datas disponíveis e eventuais gratuidades devem ser consultadas na plataforma oficial de ingressos.
Telefone: (21) 2516-7089.
Contato adicional: (21) 96465-9983.
E-mail: [email protected]
O que o visitante encontra
A visitação divulgada pela instituição inclui uma apresentação audiovisual sobre o sítio arqueológico, exposição permanente, janelas que permitem observar áreas preservadas, resultados das pesquisas e artefatos recolhidos durante as escavações.
O espaço também possui galeria de arte contemporânea, biblioteca temática com publicações sobre culturas africanas e afro-brasileiras, sala de vídeo e ambientes destinados a atividades educativas e culturais.
Por abrigar restos mortais e preservar a memória de vítimas do tráfico transatlântico, o IPN deve ser visitado com respeito. Evite tocar nas áreas arqueológicas, siga as orientações dos educadores e não produza fotografias que tratem os vestígios humanos como curiosidade ou espetáculo.
Horários, preços, gratuidade e formas de agendamento podem mudar. Confirme as informações nos canais oficiais antes do deslocamento, especialmente para visitas escolares ou em grupo.

Preservar a Memória é um Ato de Resistência
A redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos revelou uma parte da história que havia sido fisicamente coberta pelo crescimento urbano e frequentemente afastada das narrativas tradicionais sobre o Rio de Janeiro.
A preservação do sítio reconhece a humanidade das pessoas ali depositadas e permite que a arqueologia, os documentos e a educação patrimonial contribuam para enfrentar o apagamento histórico.
Mais do que um local de pesquisa, o Instituto dos Pretos Novos é um espaço de memória, reflexão e educação antirracista. Sua continuidade permite compreender os efeitos do tráfico transatlântico e reafirmar o direito das populações afro-brasileiras à preservação de sua história e de seus territórios de memória.



