Tia Ciata e Tias Baianas

A história da Pedra do Sal está profundamente relacionada às comunidades negras que ocuparam e transformaram a região portuária do Rio de Janeiro. Entre suas principais lideranças estavam as chamadas tias baianas: trabalhadoras, comerciantes, referências religiosas e articuladoras de redes de acolhimento e proteção.

A partir da segunda metade do século XIX, migrantes vindos da Bahia se estabeleceram em diferentes pontos da região central. Esse processo começou antes da Abolição e continuou nas décadas seguintes, conectando a Saúde, a Gamboa, a Cidade Nova, a Praça Onze e outras áreas que ficaram conhecidas como Pequena África.

Essas mulheres tiveram papel decisivo na preservação de práticas religiosas, saberes culinários, formas de organização comunitária e manifestações musicais. Sua história não pertence exclusivamente à Pedra do Sal, mas ajuda a compreender por que esse território se tornou uma referência da cultura afro-brasileira.

👑 Quem Foram as Tias Baianas na Pequena África

As tias baianas eram mulheres negras, muitas delas provenientes da Bahia, que ocupavam posições de respeito e liderança nas comunidades afro-brasileiras do Rio de Janeiro. Não formavam uma associação oficial nem possuíam trajetórias idênticas.

A designação “tia” não indicava necessariamente parentesco. Era também uma forma de reconhecer mulheres mais experientes, capazes de orientar famílias, acolher recém-chegados, organizar atividades religiosas e ajudar a manter redes de convivência e solidariedade.

A comunidade baiana já estava presente no Rio desde pelo menos a década de 1870. A própria Tia Ciata chegou à cidade em 1876, aos 22 anos.

Organização econômica e autonomia

Muitas tias baianas trabalhavam com a produção e a venda de quitutes, doces e outros alimentos. Seus tabuleiros e barracas proporcionavam renda, circulação pelo espaço urbano e maior autonomia em uma sociedade que limitava as oportunidades de trabalho para mulheres negras.

Não é possível afirmar que todas vendiam exatamente acarajé, mingau, vatapá e os mesmos pratos. Os alimentos variavam de acordo com cada trabalhadora, sua formação, seus conhecimentos e o contexto de venda. No caso de Tia Ciata, as fontes destacam especialmente sua atuação como quituteira, doceira, comerciante e produtora de roupas de baiana.

Redes de acolhimento e solidariedade

As casas das tias funcionavam como pontos de referência para parentes, trabalhadores, músicos, integrantes de comunidades religiosas e pessoas recém-chegadas ao Rio. Nesses espaços circulavam comida, informações, oportunidades de trabalho, manifestações culturais e formas de proteção comunitária.

É plausível relacionar essas redes aos estivadores e demais trabalhadores da região portuária.

Preservação das tradições religiosas

Várias tias baianas ocupavam posições importantes em comunidades religiosas de matriz africana. Suas casas podiam sediar obrigações, celebrações, refeições rituais e encontros comunitários em um período marcado pela perseguição policial e pela estigmatização dessas práticas. Nem todas possuíam o mesmo cargo religioso.

Em conjunto, essas mulheres foram comerciantes, lideranças religiosas, chefes de família e articuladoras de importantes redes sociais da Pequena África.

Tia Ciata: Matriarcado, Fé e Samba

Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata ou Aciata, nasceu em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, em 13 de janeiro de 1854. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos, acompanhada de uma filha.

Hilária viveu inicialmente na região da Pedra do Sal, no Beco João Inácio e na Rua da Alfândega. Posteriormente, passou pelas ruas General Pedra e dos Cajueiros, chegando mais tarde à Rua Visconde de Itaúna, próxima à Praça Onze.

A residência mais conhecida ficava no número 117 da Rua Visconde de Itaúna, onde Tia Ciata viveu durante parte do período entre 1899 e 1924. O imóvel desapareceu com as demolições realizadas para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

A organização dos espaços da casa

Relatos sobre a casa indicam que diferentes manifestações aconteciam em seus ambientes. A sala da frente recebia bailes, choros e músicas instrumentais, enquanto o samba de partido-alto se concentrava principalmente nos fundos. O terreiro era utilizado para cerimônias religiosas, batucadas e outras atividades comunitárias.

Essa divisão não deve ser compreendida como uma planta rígida e imutável. A casa era um espaço vivo, no qual religião, comida, música, celebração familiar e convivência comunitária se cruzavam.

Relação com a repressão policial

As manifestações negras enfrentavam vigilância e repressão. Relatos familiares reproduzidos por pesquisadores relacionam a relativa proteção da casa ao emprego de seu marido, João Baptista da Silva, e aos contatos da família com integrantes da polícia e do poder público. A conhecida narrativa sobre Tia Ciata ter tratado uma enfermidade do presidente Wenceslau Brás faz parte dessas memórias, mas deve ser apresentada como relato transmitido por descendentes, e não como fato documental totalmente comprovado.

A casa e “Pelo Telefone”

A casa de Tia Ciata está tradicionalmente associada às rodas e improvisações das quais teria surgido parte de “Pelo Telefone”. Donga solicitou o registro da música em novembro de 1916, e a obra se tornou um grande sucesso no Carnaval de 1917.

O registro e a partitura foram associados a Donga e Mauro de Almeida, mas a autoria permanece discutida. Pesquisadores apontam que versos, melodias e motivos musicais circulavam coletivamente entre os participantes das rodas. A obra está relacionada aos encontros da casa, e não exclusivamente a um único compositor.

O samba carioca foi resultado de um processo coletivo que envolveu tias baianas, músicos, trabalhadores, partideiros, comunidades religiosas, ranchos e diferentes territórios da cidade.

📍 A Conexão com a Pedra do Sal e o Legado das Tias

A Pedra do Sal foi utilizada em atividades relacionadas ao embarque, desembarque e transporte do sal. A região também era frequentada por estivadores, quituteiras, capoeiristas, comerciantes e outros trabalhadores ligados à vida portuária.

As tias baianas fizeram parte desse universo social, mas sua atuação não ficou restrita aos degraus da Pedra do Sal. Suas redes alcançavam diferentes áreas da Saúde, da Gamboa, da Cidade Nova e da Praça Onze.

Ponto de encontro cultural

A Pedra do Sal e seus arredores tornaram-se locais de convivência, trabalho, religião e música. Trabalhadores portuários, moradores, capoeiristas e integrantes de comunidades baianas circulavam pelo território, favorecendo o encontro entre diferentes tradições.

Uma rede maior de mulheres

Além de Tia Ciata, fontes registram nomes como Tia Amélia, mãe de Donga; Tia Bebiana; Tia Mônica; Tia Carmem; e Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana.

Essas mulheres participavam de redes de religião, trabalho, acolhimento e sociabilidade. Elas ajudavam a organizar e sustentar essas redes.

Resistência, religião e criação cultural

As casas das tias permitiam a realização de festas, reuniões, obrigações religiosas e encontros musicais em um contexto de repressão. Esse ambiente contribuiu para a circulação de ritmos, danças e conhecimentos trazidos da Bahia e reelaborados no Rio.

Memória viva

Atualmente, a Pedra do Sal permanece reconhecida como monumento histórico e religioso da cultura afro-brasileira. A ligação com as tias baianas integra a memória das comunidades negras que viveram e trabalharam na região durante os séculos XIX e XX.

O Legado das Matriarcas Permanece

Reconhecer a importância das tias baianas é compreender que a formação cultural do Rio de Janeiro não dependeu apenas dos compositores que posteriormente alcançaram fama.

Essas mulheres criaram condições para a continuidade de práticas religiosas, redes de solidariedade, atividades comerciais, festas e manifestações musicais. Seu protagonismo influenciou profundamente o desenvolvimento do samba, do carnaval e da identidade cultural carioca.

Em vez de afirmar que o Rio e o samba “não existiriam” sem elas, uma formulação historicamente mais equilibrada é reconhecer que ambos seriam profundamente diferentes sem o trabalho, a liderança e os espaços comunitários mantidos por essas mulheres.

A memória da Pedra do Sal também deve ser contada a partir dessa dimensão coletiva, conectando Tia Ciata a Bebiana, Mônica, Carmem, Amélia, Prisciliana e tantas outras mulheres negras cujas trajetórias foram registradas de forma incompleta.